TÍTULO: O TEMPO É DIFERENTE.
Nesse primeiro ano pós cirúrgico, procurei realizar vários passeios com ela, usando a cadeira de rodas, pois ainda não estava firme para usar a muleta na rua. Fato que nunca aconteceu. Nunca mais andou na rua de muletas. Íamos no shopping nos sábados ou no Jardim Zoológico. A Vera já não trabalhava mais conosco mas, tinha montado uma barraquinha na Quinta da Boa Vista e, aproveitávamos para visita-la. Mamãe adorava ir no Zoo, tiramos muitas fotos. Andávamos pela Quinta, fomos no Museu Nacional e fazíamos um lanche por lá. Voltávamos cansadas e ela ia direto pra cama tirar uma soneca. Tudo parecia estar se normalizando.
Em Maio fomos visitar minha madrinha em Laranjeiras e as duas amigas mataram as saudades. Pelo menos duas a três vezes na semana, íamos no play do prédio no fim da tarde, para tomar um solzinho e outras vezes, andávamos na rua do bairro. Esses passeios começaram a diminuir porque era mal chegar no lugar que ela já queria voltar. As calçadas também não ajudam muito um cadeirante.
Mamãe começou a perder a noção do tempo, já não sabia que dia da semana estávamos ou o mês. Tinha pouca noção das horas, apesar do relógio ficar sempre perto dela. Cinco minutos pareciam duas horas e quatro horas eram dez minutos. Me chamava sem controle, só para saber se eu estava em casa ou por algum outro motivo que não lembrava. Hoje vejo isso claramente, mas na época não imaginava que poderia ser o princípio do Alzheimer.
Sempre gostou de ver revistas de viagens e ela ainda tinha uma assinatura mensal (10 anos de assinatura). Comecei a buscar revistas para ela olhar e recortar as figuras mais chamativas pra ela. Montamos vários álbuns com esses recortes. Outros, ela guardava por tema em envelopes separados. Pássaros, árvores, vistas com muito verde, navios (especialmente), crianças, bichinhos (como cães e gatos), plantas, moveis, casas e carros, etc. Passava horas recortando, separando e classificando. Tirava um tempo para ver seus programas na TV e rezar o terço. Foi a maneira que encontrei dela ter um hobby.
Vaidosa, a manicure vinha aos sábados para arrumar suas unhas. Gostava de se maquiar e penteava os cabelos cacheados sempre que dava vontade. Não queria que ninguém a visse sem os brincos ou despenteada. No princípio ficava chateada porque eu dava o seu banho e, tentava ajudar, na hora de se vestir. Mas, ela já apresentava dificuldades por estar sentada.
Mas, tirando esses encalços, o ano de 2011 foi bom e, chegou as festas de final de ano. Desta vez teve árvore montada com antecedência, almoço de Natal (não fazemos ceia porque ela dorme cedo), castanhas e rabanada, presentes e muita alegria. Minha mãe estava comigo.
Dia 23 de junho de 2016. Minha mãe com a doença há 3 anos, com dificuldades de se expressar. Nesse vídeo, pede um lanche diferente porque está com fome. O detalhe é que já tinha lanchado antes e não se lembrava.
Contada pela filha que cuidou de sua mãe com Alzheimer, no período de 2010 a 2019, passando pelas quatro fases, detalhando as dificuldades e os acertos diante desta doença neuro degenerativa, que se tornou tão comum nos dias de hoje. Tenho como propósito informar e orientar outros que cuidam. Sou Psicóloga e tenho pós graduação em Gerontologia. Vocês me encontram nas redes sociais, basta digitar meu nome: Juana Llabres.
24 junho 2016
23 junho 2016
TÍTULO: OS PRIMEIROS SINAIS.
Falar com a Tv, nos dias de hoje, é como falar sozinho. Quem já não o fez? Quantas vezes nossos pais ou companheiros, reclamam com o juiz de futebol ou, nas novelas, reclamamos com os personagens? Tem ainda aqueles que nos filmes de terror, gritam com a vítima para que saiam daquele lugar. Pois bem, minha mãe falava com a TV e, pensava que lhe respondiam. Conversas que a animavam e outras, a deixavam muito chateadas, a ponto de chorar. Até aí tudo bem. Se isso não fosse, além de estranho, constante.
Depois começou a ter dificuldades para usar o celular. Esquecia-se de como clicar na tecla rápida, onde estava gravado o meu numero ou de desligar o celular. Nada tão complicado, mas anda esperado, pois a tecnologia não nasceu com ela e muitas das pessoas possuem esta dificuldade em operar celulares ou computadores.
Um dos problemas que surgiram foi a parte monetária, ela começou a demonstrar dificuldades em manusear o dinheiro, a fazer contas, dar troco, reconhecer as cédulas. Minha mãe nunca foi de usar cartão bancário, tudo era na mão, a vista. Encontrei depois de um bom tempo, dinheiro escondido no guarda roupa e em outros locais.
Ela usava muito o calendário para marcar os dias os seus compromissos e começou ta,bém a fazer confusão com essas datas, rasurando muito este calendário, para no fim das contas, começar a contar tudo de novo. Eu me sentava junto dela e mostrava como fazer.... no final desistia e a deixava em paz com suas contas.
Mas, quando ela começou a usar o relógio ou o pente para ligar a Tv em vez do controle remoto, a situação ficou muito estranha.
Estávamos no meio do ano de 2014.
Desde que minha mãe se recuperou de uma cirurgia, que quase a levou a morte, em 2010, para ser mais exata, dia 28 de outubro, ela retornou confusa do hospital. Foram 32 dias, sendo que mais de 10 dias num CTI. Ao relatar isso ao médico, ele me disse que essa confusão foi causada pelo tempo em que ficou internada e, é muito comum ocorrer com idosos e com, o passar dos dias, ela voltaria ao normal.
E voltou. Foi o que pensei.
Pra vocês entenderem como tudo aconteceu, foi fazer um resumo.
Após a festa de Nossa Senhora Aparecida, minha mãe se sentiu mal. Ela sempre teve o hábito de tomar remédios para ajudar na eliminação de fezes. Remédios esses, não controlados, que abusava. Ao ir ao banheiro, correndo, ela acabou caindo em casa e sentiu muita dor. Associamos isso as cólicas. Acabei levando-a a emergência que não viu nada de mais.
Com o passar dos dias, essa dor foi aumentando e fomos mais 3 vezes a emergência que diagnosticou nervo ciático, prescrevendo anti-inflamatórios. Cada vez que que a levava, a receita mudava, mas o diagnóstico não.
Durante o período de 15 dias, chamei a ambulância em casa que administrou injeções de anti-inflamatórios e outro para a dor. Acalmava por umas poucas horas e tudo começava outra vez. Foram dias intermináveis, onde ela não conseguia dormir a noite toda e, isso acabou influenciando na alimentação, que se recusava a ingerir. Imagina a cena, ela não queria comer e tomava muitos remédios para a dor. Recusava sucos e até mesmo água. Eu já estava no máximo, estressada, com medo, sem saber o que fazer. Liguei para os médicos dela e todos diziam para levá-la a emergência. Fui o que fiz e nada. Chegou-se ao ponto dela não conseguir mais sentar. A dor era tanta que ficava deitada todo o tempo.
Até que.....
Na madrugada de do dia 28 de outubro, mamãe me chamou gritando de tanta dor. O estomago dela estava alto, vermelho e quente. A ambulância chegou as 5h, depois de 2 horas intermináveis de espera. Fomos direto para o hospital. Era caso de cirurgia, com risco de rompimento do intestino.
Foram as piores horas da minha vida.
Só sei que, ao chegarmos na emergência do hospital, era troca de turno. Quando, finalmente, fomos atendidas, ela foi encaminhada para exames, que vieram a comprovar que algo tinha se rompido mas, ainda não sabiam se era intestino ou estomago, pois sua barriga estava cheia de algo que impedia melhor visualização. Pediram que fosse em casa, buscar roupa e pertences pessoais, pois minha mãe seria internada e um cirurgião fora convocado. Ao chegar em casa, o medico ligou pedindo autorização para opera-la, que o caso era de vida ou morte e que não daria tempo do meu retorno ao hospital para assinar os documentos de autorização. Ele estava pronto e sua equipe na sala de cirurgia.
Uma amiga me acompanhou, Conceição. Nem sei como agradecer essas longas horas que passamos juntas na recepção do hospital. Ela foi o meu apoio.
A cirurgia foi um sucesso e, quando o médico me deu esta resposta tão desejada, o abracei chorando feito uma criança, de tanta alegria por Deus ter me atendido. Contou-me que a cirurgia durou 1h e 30 min e que o problema fora no estomago. Afirmando que são poucos que conseguem sobreviver a uma situação desta, me parabenizando pelo pronto atendimento. Confesso que não escutei mais nenhuma palavra do que ele me disse. Tudo isso me foi relatado depois, pela Conceição, que não me deixava nenhum minuto.
Ficamos "internadas", digo isso porque fiquei com ela todo o tempo, 32 dias. Sendo que 11 dias no CTI e o resto no quarto. Não dormia no hospital, por ter que retornar a casa e cuidar de outros afazeres. Mas, todos os dias, estava entre 8 h ou um pouco mais, no quarto com ela, saindo por volta das 19 hs. Enfrentava o transito para ir e para volta. Era mais de uma hora que levava para chegar ao hospital.Uma verdadeira tortura, pois não tinha notícia dela durante toda a noite e ficava passando mil coisas pela minha cabeça. A ajudava no banho, na alimentação e procurando distraí-la de todos os inconvenientes. Como todo hospital, o idoso tem seus risco de infecção, e uma pneumonia, uma infecção nos rins e trombo na virilha foram resultados destes 32 dias internada.
Ao retornar para casa, ela não reconheceu o quarto. Não reconhecia as pessoas que vinham visita-la. Não sabia com quem falava ao telefone e, tudo para ela era novidade, novo, diferente. Ficou assim durante uns dias.
Devido a trombo, uma semana depois, medicada com Marevan, houve um rompimento de vasos internos que saíram pelas fezes. Nunca irei me esquecer do odor. Ainda bem que eu não estava sozinha. Um enfermeiro contratado, vinha de manhã, todos os dias, para dar o banho nela e, quando necessário, aplicar um Enema, ajudando na evacuação. Neste dia, as fezes vieram com sangue. Em casa também estava a Vera, nossa auxiliar semanal, uma amiga de muitos anos, Jesuíta e a Conceição de todas as horas. Era muito sangue e, por mais de duas vezes, quase desmaiou. O enfermeiro ficou ao seu lado, socorrendo-a. Foi o que a salvou.
Não sei se isso acontece com outras pessoas, mas penso que sim. Quando fico aflita, com medo, diante de uma situação de estrese, fico muito agitada e preciso liberar a adrenalina. Minha mãe no banheiro com o enfermeiro, que a socorria, a Vera, limpando todo aquele sangue e trocando os lençóis, minhas duas amigas na sala rezando e eu, fui fazer café. Isso mesmo, fui a cozinha fazer um café que ninguém bebeu. Eu tinha que fazer alguma coisa. Precisava me ocupar.
Liguei para o médico dela que providenciou uma ambulância e a sua internação num hospital mais perto de casa. Mais uma vez ficou internada no CTI, por 3 dias e outros 8 no quarto, aguardando sua estabilização, para um exame de colonoscopia. Por não haver vaga em um quarto individual, ela dividiu com outra paciente, num quarto de enfermaria, amplo e bem arejado. Fiquei sentada numa cadeira de escritório ao lado dela, todos os dias.
Por ser dezembro e por ela estar bem, recebeu alta na véspera do Natal.
Foi um Natal diferente. Meu presente estava em casa dormindo.
Enquanto a noite de ano novo, passei em claro. Ela ficou muito agitada e não conseguia dormir, nem com os remédios.
Mas, nem tudo foi tranquilo. Em março, em plena semana de carnaval, minha mãe foi novamente internada com suspeita de embolia pulmonar. Outra vez CTI por 2 dias. Foi apenas um susto e ficamos mais uma noite no quarto do hospital para servos liberadas no dia seguinte.
Como vocês devem saber, a liberação do CTI para um quarto só ocorre com a presença de um familiar e, como filha única, o fato ocorreu no horário da visita. Descemos para este quarto e tive que ir em casa buscar seus pertences e uma roupa para poder dormir com ela. Levei uma média de 1h30 minutos entre ir e voltar, encontrando-a amarrada na cama, gritando em plenos pulmões e a equipe de enfermagem, em sua sala, conversando. O sangue me subiu e a desamarrei. Levei as amarras até esta sala e chamei a atenção delas, pois não tinha autorizado essa conduta na qual me responderam que mamãe estava muito agitada e com risco de queda e já que não tinha ninguém com ela, decidiram imobiliza-la. Recolhi meus pedaços e fui para o quarto acalma-la.
Durante os quatro primeiros meses, após as internações, ela estava muito confusa, fraca, sem tomos muscular, não andava, pouco comia e parecia que estava minguando a cada dia. Não dormia a noite, queria uma luz acessa e me chamava de 5 em 5 minutos. Tinha medo de morrer dormindo. Quando muito, conseguia cochilar por meia hora. Tinha noites que eu ficava tão desesperada, que acabava perdendo a paciência, sem entender o que estava acontecendo. Afinal de contas, eu só conseguia dormir numa média de 1 h 30 min por noite, sem puder cochilar durante o dia, devido outras tarefas de minha responsabilidade. Foram dias terríveis, na qual ela tentava levantar e acabava caindo. Não conseguia ficar com ela 24 horas por dia e a pouca ajuda que tinha, acabava não retornando. Nesses quatro meses, a levei a emergência, devido as quedas, mais de seis vezes. Cada ida, uma tomografia e horas de espera. Para a agitação noturna e a falta de sono dela, tentei de tudo. Fomos a diversos médicos, neurologistas, geriatras e cheguei a agendar um horário com uma psiquiatra. Até que um dia, final de abril, me indicaram uma geriatra que ficava na Tijuca. Ela foi o anjo que faltava nas nossas vidas e naquela noite, mamãe dormiu direto até as 4 horas da manhã. Com o passar dos dias, as noites foram ficando mais tranquilas e a rotina de dormir retornou ao normal.
Mamãe voltou a se alimentar e, com a fisioterapia (com Antonio e depois com a Ivana, hoje com a Rosana Ferreira), duas vezes na semana. o tomos muscular foi reforçado. Ela voltou a andar com muletas nesse primeiro ano e, a se interessar com programas religiosos, revistas de viagens, a rezar o terço diariamente, a receber a Comunhão em casa com Dna Maria José (hoje também com Alzheimer), aceitando fazer pequenos passeios nos shopping. Ela era outra pessoa.
No dia 8 de fevereiro, contratei uma pessoa para me ajudar em casa, Jerusa. Outro anjo que veio quase todas as semana foi Jesuíta, uma amiga de muitos anos. Sempre sorrindo, brincando, animada, procurando fazer companhia a mãe. Não tenho palavras para agradecer, pois neste período tão conturbado, ela teve pneumonia, de novo.
As tomografias já apresentavam um desgaste natural que o neuro disse ser característico da idade. Pediu apenas para observar mudanças no comportamento. Não entendi na época. Ele estava tentando me dizer que possivelmente minha mãe iria desenvolver alguma demência. Leiga, não perguntei, não fiz perguntas e me omiti.
Ontem comecei a filmar os vídeos, por 2 motivos: primeiro para a ter sempre ao meu lado e, segundo, para mostrar como é a doença no dia a dia, mostrando a realidade. Meu amor por ela é incondicional.
Link do vídeo: https://youtu.be/F916dD3uJJ4
Fotos da primeira internação: outubro 2010
Fotos da segunda internação: Dezembro de 2010
Falar com a Tv, nos dias de hoje, é como falar sozinho. Quem já não o fez? Quantas vezes nossos pais ou companheiros, reclamam com o juiz de futebol ou, nas novelas, reclamamos com os personagens? Tem ainda aqueles que nos filmes de terror, gritam com a vítima para que saiam daquele lugar. Pois bem, minha mãe falava com a TV e, pensava que lhe respondiam. Conversas que a animavam e outras, a deixavam muito chateadas, a ponto de chorar. Até aí tudo bem. Se isso não fosse, além de estranho, constante.
Depois começou a ter dificuldades para usar o celular. Esquecia-se de como clicar na tecla rápida, onde estava gravado o meu numero ou de desligar o celular. Nada tão complicado, mas anda esperado, pois a tecnologia não nasceu com ela e muitas das pessoas possuem esta dificuldade em operar celulares ou computadores.
Um dos problemas que surgiram foi a parte monetária, ela começou a demonstrar dificuldades em manusear o dinheiro, a fazer contas, dar troco, reconhecer as cédulas. Minha mãe nunca foi de usar cartão bancário, tudo era na mão, a vista. Encontrei depois de um bom tempo, dinheiro escondido no guarda roupa e em outros locais.
Ela usava muito o calendário para marcar os dias os seus compromissos e começou ta,bém a fazer confusão com essas datas, rasurando muito este calendário, para no fim das contas, começar a contar tudo de novo. Eu me sentava junto dela e mostrava como fazer.... no final desistia e a deixava em paz com suas contas.
Mas, quando ela começou a usar o relógio ou o pente para ligar a Tv em vez do controle remoto, a situação ficou muito estranha.
Estávamos no meio do ano de 2014.
Desde que minha mãe se recuperou de uma cirurgia, que quase a levou a morte, em 2010, para ser mais exata, dia 28 de outubro, ela retornou confusa do hospital. Foram 32 dias, sendo que mais de 10 dias num CTI. Ao relatar isso ao médico, ele me disse que essa confusão foi causada pelo tempo em que ficou internada e, é muito comum ocorrer com idosos e com, o passar dos dias, ela voltaria ao normal.
E voltou. Foi o que pensei.
Pra vocês entenderem como tudo aconteceu, foi fazer um resumo.
Após a festa de Nossa Senhora Aparecida, minha mãe se sentiu mal. Ela sempre teve o hábito de tomar remédios para ajudar na eliminação de fezes. Remédios esses, não controlados, que abusava. Ao ir ao banheiro, correndo, ela acabou caindo em casa e sentiu muita dor. Associamos isso as cólicas. Acabei levando-a a emergência que não viu nada de mais.
Com o passar dos dias, essa dor foi aumentando e fomos mais 3 vezes a emergência que diagnosticou nervo ciático, prescrevendo anti-inflamatórios. Cada vez que que a levava, a receita mudava, mas o diagnóstico não.
Durante o período de 15 dias, chamei a ambulância em casa que administrou injeções de anti-inflamatórios e outro para a dor. Acalmava por umas poucas horas e tudo começava outra vez. Foram dias intermináveis, onde ela não conseguia dormir a noite toda e, isso acabou influenciando na alimentação, que se recusava a ingerir. Imagina a cena, ela não queria comer e tomava muitos remédios para a dor. Recusava sucos e até mesmo água. Eu já estava no máximo, estressada, com medo, sem saber o que fazer. Liguei para os médicos dela e todos diziam para levá-la a emergência. Fui o que fiz e nada. Chegou-se ao ponto dela não conseguir mais sentar. A dor era tanta que ficava deitada todo o tempo.
Até que.....
Na madrugada de do dia 28 de outubro, mamãe me chamou gritando de tanta dor. O estomago dela estava alto, vermelho e quente. A ambulância chegou as 5h, depois de 2 horas intermináveis de espera. Fomos direto para o hospital. Era caso de cirurgia, com risco de rompimento do intestino.
Foram as piores horas da minha vida.
Só sei que, ao chegarmos na emergência do hospital, era troca de turno. Quando, finalmente, fomos atendidas, ela foi encaminhada para exames, que vieram a comprovar que algo tinha se rompido mas, ainda não sabiam se era intestino ou estomago, pois sua barriga estava cheia de algo que impedia melhor visualização. Pediram que fosse em casa, buscar roupa e pertences pessoais, pois minha mãe seria internada e um cirurgião fora convocado. Ao chegar em casa, o medico ligou pedindo autorização para opera-la, que o caso era de vida ou morte e que não daria tempo do meu retorno ao hospital para assinar os documentos de autorização. Ele estava pronto e sua equipe na sala de cirurgia.
Uma amiga me acompanhou, Conceição. Nem sei como agradecer essas longas horas que passamos juntas na recepção do hospital. Ela foi o meu apoio.
A cirurgia foi um sucesso e, quando o médico me deu esta resposta tão desejada, o abracei chorando feito uma criança, de tanta alegria por Deus ter me atendido. Contou-me que a cirurgia durou 1h e 30 min e que o problema fora no estomago. Afirmando que são poucos que conseguem sobreviver a uma situação desta, me parabenizando pelo pronto atendimento. Confesso que não escutei mais nenhuma palavra do que ele me disse. Tudo isso me foi relatado depois, pela Conceição, que não me deixava nenhum minuto.
Ficamos "internadas", digo isso porque fiquei com ela todo o tempo, 32 dias. Sendo que 11 dias no CTI e o resto no quarto. Não dormia no hospital, por ter que retornar a casa e cuidar de outros afazeres. Mas, todos os dias, estava entre 8 h ou um pouco mais, no quarto com ela, saindo por volta das 19 hs. Enfrentava o transito para ir e para volta. Era mais de uma hora que levava para chegar ao hospital.Uma verdadeira tortura, pois não tinha notícia dela durante toda a noite e ficava passando mil coisas pela minha cabeça. A ajudava no banho, na alimentação e procurando distraí-la de todos os inconvenientes. Como todo hospital, o idoso tem seus risco de infecção, e uma pneumonia, uma infecção nos rins e trombo na virilha foram resultados destes 32 dias internada.
Ao retornar para casa, ela não reconheceu o quarto. Não reconhecia as pessoas que vinham visita-la. Não sabia com quem falava ao telefone e, tudo para ela era novidade, novo, diferente. Ficou assim durante uns dias.
Devido a trombo, uma semana depois, medicada com Marevan, houve um rompimento de vasos internos que saíram pelas fezes. Nunca irei me esquecer do odor. Ainda bem que eu não estava sozinha. Um enfermeiro contratado, vinha de manhã, todos os dias, para dar o banho nela e, quando necessário, aplicar um Enema, ajudando na evacuação. Neste dia, as fezes vieram com sangue. Em casa também estava a Vera, nossa auxiliar semanal, uma amiga de muitos anos, Jesuíta e a Conceição de todas as horas. Era muito sangue e, por mais de duas vezes, quase desmaiou. O enfermeiro ficou ao seu lado, socorrendo-a. Foi o que a salvou.
Não sei se isso acontece com outras pessoas, mas penso que sim. Quando fico aflita, com medo, diante de uma situação de estrese, fico muito agitada e preciso liberar a adrenalina. Minha mãe no banheiro com o enfermeiro, que a socorria, a Vera, limpando todo aquele sangue e trocando os lençóis, minhas duas amigas na sala rezando e eu, fui fazer café. Isso mesmo, fui a cozinha fazer um café que ninguém bebeu. Eu tinha que fazer alguma coisa. Precisava me ocupar.
Liguei para o médico dela que providenciou uma ambulância e a sua internação num hospital mais perto de casa. Mais uma vez ficou internada no CTI, por 3 dias e outros 8 no quarto, aguardando sua estabilização, para um exame de colonoscopia. Por não haver vaga em um quarto individual, ela dividiu com outra paciente, num quarto de enfermaria, amplo e bem arejado. Fiquei sentada numa cadeira de escritório ao lado dela, todos os dias.
Por ser dezembro e por ela estar bem, recebeu alta na véspera do Natal.
Foi um Natal diferente. Meu presente estava em casa dormindo.
Enquanto a noite de ano novo, passei em claro. Ela ficou muito agitada e não conseguia dormir, nem com os remédios.
Mas, nem tudo foi tranquilo. Em março, em plena semana de carnaval, minha mãe foi novamente internada com suspeita de embolia pulmonar. Outra vez CTI por 2 dias. Foi apenas um susto e ficamos mais uma noite no quarto do hospital para servos liberadas no dia seguinte.
Como vocês devem saber, a liberação do CTI para um quarto só ocorre com a presença de um familiar e, como filha única, o fato ocorreu no horário da visita. Descemos para este quarto e tive que ir em casa buscar seus pertences e uma roupa para poder dormir com ela. Levei uma média de 1h30 minutos entre ir e voltar, encontrando-a amarrada na cama, gritando em plenos pulmões e a equipe de enfermagem, em sua sala, conversando. O sangue me subiu e a desamarrei. Levei as amarras até esta sala e chamei a atenção delas, pois não tinha autorizado essa conduta na qual me responderam que mamãe estava muito agitada e com risco de queda e já que não tinha ninguém com ela, decidiram imobiliza-la. Recolhi meus pedaços e fui para o quarto acalma-la.
Durante os quatro primeiros meses, após as internações, ela estava muito confusa, fraca, sem tomos muscular, não andava, pouco comia e parecia que estava minguando a cada dia. Não dormia a noite, queria uma luz acessa e me chamava de 5 em 5 minutos. Tinha medo de morrer dormindo. Quando muito, conseguia cochilar por meia hora. Tinha noites que eu ficava tão desesperada, que acabava perdendo a paciência, sem entender o que estava acontecendo. Afinal de contas, eu só conseguia dormir numa média de 1 h 30 min por noite, sem puder cochilar durante o dia, devido outras tarefas de minha responsabilidade. Foram dias terríveis, na qual ela tentava levantar e acabava caindo. Não conseguia ficar com ela 24 horas por dia e a pouca ajuda que tinha, acabava não retornando. Nesses quatro meses, a levei a emergência, devido as quedas, mais de seis vezes. Cada ida, uma tomografia e horas de espera. Para a agitação noturna e a falta de sono dela, tentei de tudo. Fomos a diversos médicos, neurologistas, geriatras e cheguei a agendar um horário com uma psiquiatra. Até que um dia, final de abril, me indicaram uma geriatra que ficava na Tijuca. Ela foi o anjo que faltava nas nossas vidas e naquela noite, mamãe dormiu direto até as 4 horas da manhã. Com o passar dos dias, as noites foram ficando mais tranquilas e a rotina de dormir retornou ao normal.
Mamãe voltou a se alimentar e, com a fisioterapia (com Antonio e depois com a Ivana, hoje com a Rosana Ferreira), duas vezes na semana. o tomos muscular foi reforçado. Ela voltou a andar com muletas nesse primeiro ano e, a se interessar com programas religiosos, revistas de viagens, a rezar o terço diariamente, a receber a Comunhão em casa com Dna Maria José (hoje também com Alzheimer), aceitando fazer pequenos passeios nos shopping. Ela era outra pessoa.
No dia 8 de fevereiro, contratei uma pessoa para me ajudar em casa, Jerusa. Outro anjo que veio quase todas as semana foi Jesuíta, uma amiga de muitos anos. Sempre sorrindo, brincando, animada, procurando fazer companhia a mãe. Não tenho palavras para agradecer, pois neste período tão conturbado, ela teve pneumonia, de novo.
As tomografias já apresentavam um desgaste natural que o neuro disse ser característico da idade. Pediu apenas para observar mudanças no comportamento. Não entendi na época. Ele estava tentando me dizer que possivelmente minha mãe iria desenvolver alguma demência. Leiga, não perguntei, não fiz perguntas e me omiti.
Ontem comecei a filmar os vídeos, por 2 motivos: primeiro para a ter sempre ao meu lado e, segundo, para mostrar como é a doença no dia a dia, mostrando a realidade. Meu amor por ela é incondicional.
Link do vídeo: https://youtu.be/F916dD3uJJ4
Fotos da segunda internação: Dezembro de 2010
Lucinda Coelho
Jesuíta
Conceição, Vera e Jesuíta
TÍTULO: EM FORMA DE POESIA
1)
Quando você fica ausente,
me assusta.
Cria fantasias, alucinações,
fala falsas verdades,
me atinge, me agride.
Age feito criança,
me chama de "mãe",
depois, olha o vazio,
esquecendo-se deste mundo.
O que passa por sua cabeça?
Tenho medo.
A doença fala mais alto
e por mais que tente,
ela me vence.
Como isso tudo foi acontecer?
2)
Hoje chorei
como há tempos não o fazia.
Chorei pelo cansaço,
chorei pelo vazio.
Chorei por estar sozinha,
chorei por toda esta dor.
Chorei sem motivo
como um desabafo.
Chorei de saudades
por você não estar aqui.
Chorei em silêncio
em busca de colo.
Apenas chorei,
encolhida nos seus braços.
1)
Quando você fica ausente,
me assusta.
Cria fantasias, alucinações,
fala falsas verdades,
me atinge, me agride.
Age feito criança,
me chama de "mãe",
depois, olha o vazio,
esquecendo-se deste mundo.
O que passa por sua cabeça?
Tenho medo.
A doença fala mais alto
e por mais que tente,
ela me vence.
Como isso tudo foi acontecer?
2)
Hoje chorei
como há tempos não o fazia.
Chorei pelo cansaço,
chorei pelo vazio.
Chorei por estar sozinha,
chorei por toda esta dor.
Chorei sem motivo
como um desabafo.
Chorei de saudades
por você não estar aqui.
Chorei em silêncio
em busca de colo.
Apenas chorei,
encolhida nos seus braços.
TÍTULO: POR QUÊ ESCREVER ESSE BLOG?
Escrever, pra mim, é um desafio, além de gostar muito de ler, também amo escrever. Mas por ser filha de espanhóis e, dentro de casa, o falar português é mais raro, sempre tive muitas dificuldades na escola.
Então, me pergunto, por quê escrever?
Porque acabo de descobrir que não estou sozinha. Muitas pessoas estão vivendo a mesma situação e, existem poucos livros, ou sites que falam sobre a experiência de viver com alguém com Alzheimer. Existe sim sites que falam da doença, o que é, os sintomas, etc. São sites informativos. Mas poucos falam das nossas dúvidas, das dores, da experiência, do sentir, da culpa e do medo. Além do mas, escrever é uma maneira que encontrei de colocar pra fora o que penso e o que sinto. Em vez de continuar procurando pessoas para contar sobre isso, enchendo seus ouvidos e, conseguindo, afasta-las, resolvi escrever.
Hoje já aceito a doença. Convivo melhor com minha mãe e sei que muitas das vezes, é a doença quem está falando.
Ela está na fase intermediaria. Está medicada com Cloridrato de donepezila de 10 mg e Cloridrato de Memantina, também de 10 mg, só que duas vezes ao dia. Para quem não sabe, são 4 as fases: inicial, intermediária, final e terminal. Ainda não há cura. Ninguém morre de Alzheimer. Morre decorrente a ele, geralmente ocasionado por problemas respiratórios, como o broncoespasmo, bronco aspiração e pneumonia. Alguns com problemas de infecção urinária, outros generalizada e outros cardíacos.
Como disse antes, não estou sozinha, apesar de pensar o contrário durante o ano todo de 2015 e inicio de 2016. A partir do momento que aceitei, comecei a buscar referência, outros casos, outras experiências que viessem a me completar. Encontrei apenas 3 livros que me interessaram, sendo um apenas de outra brasileira, que vem a relatar sua experiência profissional e pessoal ao cuidar de sua mãe.. Pesquisando, entrei num grupo nas redes sociais, o Facebook e, me inscrevi. Nesse grupo, que acabou sendo de apoio, me emocionei. Me vi cercada de amigas com o mesmo problema, onde todos falam abertamente sobre o assunto e escutam. Dão opiniões, dicas, se ajudam. Oferecem apoio e, principalmente, entendem as dificuldades, pois já passaram por isso ou estão passando. Existe também o ABRAS, que oferece apoio. Ainda não fui assistir nenhuma palestra. Não estou pronta.
Escrever me ocupa.
Escrever me tranquiliza.
Escrever me faz sentir.
Espero que, um dia, isso possa vir a ajudar outras pessoas.
Durante esse ano, acabei conhecendo uma pessoa que acabou se tornando uma grande amiga. Uma amiga no Alzheimer. A Claudia Alves Silva, que hoje tem um canal no Youtube - Francisquinha Alves, O Bom do Alzheimer. Ela estava no mesmo grupo do Facebook e, nessa amizade, resolvemos criar nossas páginas no youtube. Trocamos ideias e nos ajudamos. Transformei a minha página pessoal em Minha mãe tem Alzheimer , colocando os primeiros vídeos que fiz com mamãe, para mostrar ao médico. Vamos começar a divulgar o Alzheimer de uma maneira mais tranquila.
Escrever, pra mim, é um desafio, além de gostar muito de ler, também amo escrever. Mas por ser filha de espanhóis e, dentro de casa, o falar português é mais raro, sempre tive muitas dificuldades na escola.
Então, me pergunto, por quê escrever?
Porque acabo de descobrir que não estou sozinha. Muitas pessoas estão vivendo a mesma situação e, existem poucos livros, ou sites que falam sobre a experiência de viver com alguém com Alzheimer. Existe sim sites que falam da doença, o que é, os sintomas, etc. São sites informativos. Mas poucos falam das nossas dúvidas, das dores, da experiência, do sentir, da culpa e do medo. Além do mas, escrever é uma maneira que encontrei de colocar pra fora o que penso e o que sinto. Em vez de continuar procurando pessoas para contar sobre isso, enchendo seus ouvidos e, conseguindo, afasta-las, resolvi escrever.
Hoje já aceito a doença. Convivo melhor com minha mãe e sei que muitas das vezes, é a doença quem está falando.
Ela está na fase intermediaria. Está medicada com Cloridrato de donepezila de 10 mg e Cloridrato de Memantina, também de 10 mg, só que duas vezes ao dia. Para quem não sabe, são 4 as fases: inicial, intermediária, final e terminal. Ainda não há cura. Ninguém morre de Alzheimer. Morre decorrente a ele, geralmente ocasionado por problemas respiratórios, como o broncoespasmo, bronco aspiração e pneumonia. Alguns com problemas de infecção urinária, outros generalizada e outros cardíacos.
Como disse antes, não estou sozinha, apesar de pensar o contrário durante o ano todo de 2015 e inicio de 2016. A partir do momento que aceitei, comecei a buscar referência, outros casos, outras experiências que viessem a me completar. Encontrei apenas 3 livros que me interessaram, sendo um apenas de outra brasileira, que vem a relatar sua experiência profissional e pessoal ao cuidar de sua mãe.. Pesquisando, entrei num grupo nas redes sociais, o Facebook e, me inscrevi. Nesse grupo, que acabou sendo de apoio, me emocionei. Me vi cercada de amigas com o mesmo problema, onde todos falam abertamente sobre o assunto e escutam. Dão opiniões, dicas, se ajudam. Oferecem apoio e, principalmente, entendem as dificuldades, pois já passaram por isso ou estão passando. Existe também o ABRAS, que oferece apoio. Ainda não fui assistir nenhuma palestra. Não estou pronta.
Escrever me ocupa.
Escrever me tranquiliza.
Escrever me faz sentir.
Espero que, um dia, isso possa vir a ajudar outras pessoas.
Durante esse ano, acabei conhecendo uma pessoa que acabou se tornando uma grande amiga. Uma amiga no Alzheimer. A Claudia Alves Silva, que hoje tem um canal no Youtube - Francisquinha Alves, O Bom do Alzheimer. Ela estava no mesmo grupo do Facebook e, nessa amizade, resolvemos criar nossas páginas no youtube. Trocamos ideias e nos ajudamos. Transformei a minha página pessoal em Minha mãe tem Alzheimer , colocando os primeiros vídeos que fiz com mamãe, para mostrar ao médico. Vamos começar a divulgar o Alzheimer de uma maneira mais tranquila.
TÍTULO: NATAL DE 2014.
Mês de Natal e festas de final de Ano. Só consegui montar a árvore no dia 23. Sem clima. Parece que quando mais problemas se tem, mas aparecem. Tive um mês muito corrido e sem tempo para pensar no problema maior. Ainda bem.
Finalmente tive coragem para falar sobre o assunto com algumas poucas amigas. Sem fôlego, entre lágrimas, ainda negando tudo, consegui contar. A reação foi a mesma: incredulidade. Afinal de contas, minha mãe sempre foi uma pessoa alegre, vaidosa, forte e, era ela quem cuidava da casa e da família. A matriarca.
Hoje sei que muitas destas pessoas, a quem contei o problema, acabaram se afastando. Ninguém que ouvir problemas dos outros. O medo faz parte da vida e ficar escutando, o tempo todo, sobre o Alzheimer, é muito difícil. Se não ouvir, se não souber, não irá acontecer em minha casa. Essas coisas acontecem com os outros e nunca com a gente. Eu mesma, não conheço mais ninguém que tenha Alzheimer. Confesso que nem sabia escrever esta palavra.
O Alzheimer assusta, até parece que é contagiosa.
Com o diagnóstico feito, comecei a observar melhor as atitudes de minha mãe, que antes pareciam ser "manias de velha", idade senil..
Sua fixação, nesta época, era com um programa religioso da TV, na qual ela participava diariamente, com fervor e, fazia suas doações mensais através de boletos que eram recebidos em casa via correio, de Goias. Conversava com o Padre e acreditava, piedosamente, que ele também falava com ela e a escutava. A medida que essas doações ocorriam, elas foram aumentando o valor, por desejo dela. A ponto de ter que me intrometer, pois, se deixasse, ela doaria toda a sua aposentadoria. Chegou ao ponto de querer me acompanhar ao banco para ter a certeza de que essas doações estavam sendo feitas, no valor combinado. Tal ponto era o nível de angustia, que duvidava deste pagamento, mesmo tendo ido ao banco comigo e tendo em mãos o boleto quitado. Não é fácil levar uma pessoa que está numa cadeira de rodas, por estas calçadas mal cuidadas. E, dentro do banco, eu sentia vergonha dela estar doente. Ela gritava, falava coisas que me magoava, desconfiava de mim e dizia que eu a estava roubando. As pessoas olhavam e cochichavam, outras riam disfarçadamente e eu sentia que como se uma seta apontasse a minha a culpa por não ter percebido a doença antes, uma seta vermelha e reluzente sobre a minha cabeça. Ninguém mais poderia saber. Eu escondia o Alzheimer de minha mãe.
Houve antes desta época, discussões sobre essas doações, eram mensais. Isso antes mesmo de saber qual era o problema. Sabia que tinha alguma coisa acontecendo, mas nunca imaginei o tamanho dele. Toda vez que ela recebia a carta mensal do programa, com o boleto, eu já sabia. No dia seguinte era fatal. Não pela doação. Mas pelo modo que estava acontecendo. Minha mãe não tinha mais noção do valor de cada cédula e, R$ 100,00 reais para era igual a uma nota de R$ 1,00. Eu ficava apavorada com os sinais e negava. Houve vezes que ela tentou ir sozinha ao banco mas, devido sua dificuldade em andar, não conseguia e eu, como filha, acabava cedendo. Não antes de negociarmos o valor.
Paralelo a tudo isso, minha mãe estava com dificuldades para dormir. A noite a assustava muito e, parece que o medo da morte é maior do que o sono, ficando muito agitada. Tal agitação fazia com que ela ao se deitar, ficasse se revisando na cama. Queria levantar e voltava para a sala. Isso não acontecia uma vez e sim várias. As vezes passavam-se duas horas nesse ir e vir. Era um tal de ir para a sala, da sala para o quarto, do quarto para a sala, de novo para o quarto, deitando no sofá, voltando pra cama, até ficar cansada e o remédio fazer seu efeito, vencendo-a.
Outros dias, acaba dormindo praticamente o dia todo, sem medicação.
Ficando sonolenta, mole, sem animo para nada. Só querendo cama.
Uma rotina que se parece com um ciclo interrupto.
Então, dezembro chega ao seu final e um ano novo começa.Nunca chorei tanto na noite de ano novo, na varanda de minha casa, vendo os fogos, a alegria dos outros. Eu me sentia a vítima. O mundo todo comemorando e eu sozinha, triste, desesperada, cansada, derrotada. Mamãe dormiu esta noite.
Mês de Natal e festas de final de Ano. Só consegui montar a árvore no dia 23. Sem clima. Parece que quando mais problemas se tem, mas aparecem. Tive um mês muito corrido e sem tempo para pensar no problema maior. Ainda bem.
Finalmente tive coragem para falar sobre o assunto com algumas poucas amigas. Sem fôlego, entre lágrimas, ainda negando tudo, consegui contar. A reação foi a mesma: incredulidade. Afinal de contas, minha mãe sempre foi uma pessoa alegre, vaidosa, forte e, era ela quem cuidava da casa e da família. A matriarca.
Hoje sei que muitas destas pessoas, a quem contei o problema, acabaram se afastando. Ninguém que ouvir problemas dos outros. O medo faz parte da vida e ficar escutando, o tempo todo, sobre o Alzheimer, é muito difícil. Se não ouvir, se não souber, não irá acontecer em minha casa. Essas coisas acontecem com os outros e nunca com a gente. Eu mesma, não conheço mais ninguém que tenha Alzheimer. Confesso que nem sabia escrever esta palavra.
O Alzheimer assusta, até parece que é contagiosa.
Com o diagnóstico feito, comecei a observar melhor as atitudes de minha mãe, que antes pareciam ser "manias de velha", idade senil..
Sua fixação, nesta época, era com um programa religioso da TV, na qual ela participava diariamente, com fervor e, fazia suas doações mensais através de boletos que eram recebidos em casa via correio, de Goias. Conversava com o Padre e acreditava, piedosamente, que ele também falava com ela e a escutava. A medida que essas doações ocorriam, elas foram aumentando o valor, por desejo dela. A ponto de ter que me intrometer, pois, se deixasse, ela doaria toda a sua aposentadoria. Chegou ao ponto de querer me acompanhar ao banco para ter a certeza de que essas doações estavam sendo feitas, no valor combinado. Tal ponto era o nível de angustia, que duvidava deste pagamento, mesmo tendo ido ao banco comigo e tendo em mãos o boleto quitado. Não é fácil levar uma pessoa que está numa cadeira de rodas, por estas calçadas mal cuidadas. E, dentro do banco, eu sentia vergonha dela estar doente. Ela gritava, falava coisas que me magoava, desconfiava de mim e dizia que eu a estava roubando. As pessoas olhavam e cochichavam, outras riam disfarçadamente e eu sentia que como se uma seta apontasse a minha a culpa por não ter percebido a doença antes, uma seta vermelha e reluzente sobre a minha cabeça. Ninguém mais poderia saber. Eu escondia o Alzheimer de minha mãe.
Houve antes desta época, discussões sobre essas doações, eram mensais. Isso antes mesmo de saber qual era o problema. Sabia que tinha alguma coisa acontecendo, mas nunca imaginei o tamanho dele. Toda vez que ela recebia a carta mensal do programa, com o boleto, eu já sabia. No dia seguinte era fatal. Não pela doação. Mas pelo modo que estava acontecendo. Minha mãe não tinha mais noção do valor de cada cédula e, R$ 100,00 reais para era igual a uma nota de R$ 1,00. Eu ficava apavorada com os sinais e negava. Houve vezes que ela tentou ir sozinha ao banco mas, devido sua dificuldade em andar, não conseguia e eu, como filha, acabava cedendo. Não antes de negociarmos o valor.
Paralelo a tudo isso, minha mãe estava com dificuldades para dormir. A noite a assustava muito e, parece que o medo da morte é maior do que o sono, ficando muito agitada. Tal agitação fazia com que ela ao se deitar, ficasse se revisando na cama. Queria levantar e voltava para a sala. Isso não acontecia uma vez e sim várias. As vezes passavam-se duas horas nesse ir e vir. Era um tal de ir para a sala, da sala para o quarto, do quarto para a sala, de novo para o quarto, deitando no sofá, voltando pra cama, até ficar cansada e o remédio fazer seu efeito, vencendo-a.
Outros dias, acaba dormindo praticamente o dia todo, sem medicação.
Ficando sonolenta, mole, sem animo para nada. Só querendo cama.
Uma rotina que se parece com um ciclo interrupto.
Então, dezembro chega ao seu final e um ano novo começa.Nunca chorei tanto na noite de ano novo, na varanda de minha casa, vendo os fogos, a alegria dos outros. Eu me sentia a vítima. O mundo todo comemorando e eu sozinha, triste, desesperada, cansada, derrotada. Mamãe dormiu esta noite.
TÍTULO: NEGAR, NEGAR E NEGAR DE NOVO.
Luto. É assim que me sinto. Vivendo uma dor antes da perda. Olho minha mãe e sofro com antecedência. Sinto-me encolhida com o medo de enfrentar tudo isso sozinha.
É preciso passar por este luto para poder aceitar no final. Mas estou muito longe disso.
Para quem não sabe, ainda, o Luto tem 5 fases: Negação, Raiva, Negociação, Depressão e finalmente, a Aceitação.
Negação- É o momento que levamos um choque com uma perda definitiva, seja ela qual for, um ente querido que morre, quando se perde o emprego, ou outro acontecimento inesperado. É como se fossemos nos despedir para sempre, forçadamente. Não conseguimos acreditar no que está acontecendo e, a dor é tão grande, que negamos. "Isso não é real". " "Deve ter algum engano".
Raiva: Muito difícil de descrever, a raiva chega logo depois da etapa da negação. "Como foi acontecer isso comigo? Palavras e ações de raiva, inveja, revolta e ressentimento aparecem. Todos em nossa volta são culpados, projetamos esses sentimentos nos amigos, familiares e em Deus.
Isso não ocorre linearmente, as 5 etapas do luto poder ocorrer de maneiras diferentes e algumas etapas nem acontecem. Depende muito da estrutura do indivíduo.
Luto. É assim que me sinto. Vivendo uma dor antes da perda. Olho minha mãe e sofro com antecedência. Sinto-me encolhida com o medo de enfrentar tudo isso sozinha.
É preciso passar por este luto para poder aceitar no final. Mas estou muito longe disso.
Para quem não sabe, ainda, o Luto tem 5 fases: Negação, Raiva, Negociação, Depressão e finalmente, a Aceitação.
Negação- É o momento que levamos um choque com uma perda definitiva, seja ela qual for, um ente querido que morre, quando se perde o emprego, ou outro acontecimento inesperado. É como se fossemos nos despedir para sempre, forçadamente. Não conseguimos acreditar no que está acontecendo e, a dor é tão grande, que negamos. "Isso não é real". " "Deve ter algum engano".
Raiva: Muito difícil de descrever, a raiva chega logo depois da etapa da negação. "Como foi acontecer isso comigo? Palavras e ações de raiva, inveja, revolta e ressentimento aparecem. Todos em nossa volta são culpados, projetamos esses sentimentos nos amigos, familiares e em Deus.
Negociação: Quando essa etapa surge, as negociações, geralmente ocorrem com Deus, em forma de promessas. É um tipo de acordo para que a realidade não ocorro e que tudo volte a ser como era antes.
Depressão: trata-se de um sofrimento profundo, quando se percebe que a perda é real e inevitável. Existe um vazio na alma e a necessidade de se isolar do mundo.
Aceitação: Com as emoções mais calmas e com serenidade, chega-se a aceitação, fechando o ciclo. O vazio que antes existia, é preenchido e a pessoa começa a enxergar as limitações e a enfrentar as dificuldades. Existe esperança.
Isso não ocorre linearmente, as 5 etapas do luto poder ocorrer de maneiras diferentes e algumas etapas nem acontecem. Depende muito da estrutura do indivíduo.
No meu caso, a negação durou mais de um ano. Não aceitei a doença e me negava a enxergar o que estava acontecendo. Tudo isso misturado com muita raiva. Durante esse trajeto, final de 2014 e todo o ano de 2015, de senti medo, raiva, neguei e negociei com Deus. Não entrei na depressão e, por esse motivo, tive forças para seguir em frente. Não afirmo e ainda nem tenho certeza se estou na fase da aceitação. Muitas coisas estão acontecendo. E quando percebo, uma mistura de fases se apresentam, a raiva ainda se faz presente.
Fontes:
Processos de perda e luto possui cinco fases - por Thais Petroff
Psicologia Free por Jorge Elói
Mundo da Psicologia por
TÍTULO: 02 DE DEZEMBRO DE 2014
Cheguei em casa com minha mãe, por volta das 13 horas. Estava sem chão. Queria chorar, mas disfarçava, prendia o choro e sorria. A levei ao banheiro e troquei sua roupa. A coloquei na cama e fui a cozinha preparar algo para almoçarmos. Não parava de pensar no que a Dra. tinha me dito na consulta de hoje. ALZHEIMER. Minha mãe está com Alzheimer, no mínimo há dois anos. Meu Deus! E agora?
Procurei entender todos os sinais e comecei a juntar as pecinhas. Como não consegui enxergar isso antes? A culpa chegou e bateu de frente, doeu. Afinal sou formada em Psicologia e não percebi nada. Ou melhor, acreditei que esses pequenos sinais era da idade. Afinal de contas. mamãe está com 87 anos. Neguei. Neguei e neguei de novo. Era muita dor no peito querendo arrebentar e, agora não podia. Tinha que fazer o almoço e dar de comer a pessoa que mais amo na vida.
O Alzheimer não iria me vencer. Não hoje, pelo menos.
Quero guardar todos os beijos
que você puder me dar.
Deixar-los bem escondidinhos
na memória do coração.
Não quero esquecer o sabor
deste teu carinho.
Encostar meu rosto no seu
e secar suas lágrimas.
mesmo sem conseguir entender
o que te deixa tão triste.
Na verdade a levei em outros 4 médicos antes de chegar a esse diagnóstico, incluindo um Neurologista, que acabou prescrevendo um remédio que a deixou muito lenta, babando, sem aquela luz nos olhos, com muita dificuldade de se alimentar e só querendo dormir.
Falei com ele sobre esses sintomas depois de 4 dias medicada. Era para dar continuidade ao tratamento. Mas, sinceramente, não queria ver minha mãe assim. Não sabia ainda que estava acontecendo e ele a medicou para que pudesse ter um pouco de tranquilidade na hora de dormir. Mas, ela dormia o dia todo. Como é possível isso? Joguei fora o remédio e parti para uma segunda opinião, terceira, quarta.....
Cheguei em casa com minha mãe, por volta das 13 horas. Estava sem chão. Queria chorar, mas disfarçava, prendia o choro e sorria. A levei ao banheiro e troquei sua roupa. A coloquei na cama e fui a cozinha preparar algo para almoçarmos. Não parava de pensar no que a Dra. tinha me dito na consulta de hoje. ALZHEIMER. Minha mãe está com Alzheimer, no mínimo há dois anos. Meu Deus! E agora?
Procurei entender todos os sinais e comecei a juntar as pecinhas. Como não consegui enxergar isso antes? A culpa chegou e bateu de frente, doeu. Afinal sou formada em Psicologia e não percebi nada. Ou melhor, acreditei que esses pequenos sinais era da idade. Afinal de contas. mamãe está com 87 anos. Neguei. Neguei e neguei de novo. Era muita dor no peito querendo arrebentar e, agora não podia. Tinha que fazer o almoço e dar de comer a pessoa que mais amo na vida.
O Alzheimer não iria me vencer. Não hoje, pelo menos.
Quero guardar todos os beijos
que você puder me dar.
Deixar-los bem escondidinhos
na memória do coração.
Não quero esquecer o sabor
deste teu carinho.
Encostar meu rosto no seu
e secar suas lágrimas.
mesmo sem conseguir entender
o que te deixa tão triste.
Na verdade a levei em outros 4 médicos antes de chegar a esse diagnóstico, incluindo um Neurologista, que acabou prescrevendo um remédio que a deixou muito lenta, babando, sem aquela luz nos olhos, com muita dificuldade de se alimentar e só querendo dormir.
Falei com ele sobre esses sintomas depois de 4 dias medicada. Era para dar continuidade ao tratamento. Mas, sinceramente, não queria ver minha mãe assim. Não sabia ainda que estava acontecendo e ele a medicou para que pudesse ter um pouco de tranquilidade na hora de dormir. Mas, ela dormia o dia todo. Como é possível isso? Joguei fora o remédio e parti para uma segunda opinião, terceira, quarta.....
Nos culpamos ao perceber que todos aqueles sintomas são na
verdade o início de uma demência. Confundimos esses sinais como coisa da idade,
caduquice, esquisitice ou envelhecimento normal esperado. Não paramos para
avaliar o que está acontecendo, afinal de contas, qual o problema de pessoa
repetir sempre a mesma história? Ou ainda, esquecer palavras ou confundir-se
com o nome de objetos? Quem nunca conversou com a televisão? Ou esqueceu a onde
guardou o controle da TV? Ou até mesmo se perdeu na rua? Ver esses sinais como
natural da idade é mais comum do que se pensa. Muitos levam um ano, dois ou cinco
anos para se ter um diagnóstico chegado e, quando isso acontece, o chão se
abre. Questionar o médico, buscar outra opinião é valido, mas, enfrentar esse
diagnóstico que se repete é muito difícil. O que fazer diante dessa situação? Buscar
informações. Procurar entender o processo neuro degenerativo que se instalou no
nosso familiar e buscar uma rede de apoio. Mas, devo salientar que, antes de
tudo isso, aceitar a doença. Entender que nada irá acontecer de um dia para
outro. Ou seja, seu familiar não irá acordar no dia seguinte sem saber quem é
ou quem é você. Isso será progressivo, podendo durar anos. Aceitar e entender a
doença. Saber que uma nova história está sendo escrita no dia a dia e, conhecer
os desafios para poder se preparar.
Saímos do consultório sabendo que nada será igual ao dia de
ontem.
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