19 junho 2019

Título: Janeiro do ano novo 2011


No dia 04 de janeiro, retornei com ela a emergência, devido a dificuldades de evacuar e com muitos gazes. Ressalto que ainda não conseguíamos dormir a noite e ela acabava cochilando de dia e eu não.
Eu procurava ficar com ela, no quarto, de noite, segurando usa mão e tentando tranquiliza-la. Ela queria tomar o remédio tarja preta e eu administrava o que me fora orientada. Mas ela queria mais. Eu não dava. Então, não dormíamos. No dia seguinte procurava o médico e ele ou mudava a receita, ou fazia um ajuste.
Alzheimer não existia nas nossas vidas.
Acredito, pelo diagnóstico da Dra Anne, a geriatra que acabou acertando a medicação, que nesse período ela estava na fase inicial.
A vida seguia em frente e eu procurava sair o menos possível para não deixa-la sozinha. Pedia ajuda de vizinhos e de amigos, para ficarem com ela quando fosse a rua, como no início do mês de janeiro precisei renovar minha carteira de motorista e a Jesuíta ficou de bom grado com ela. Conversaram e riram muito dos tempo antigos.
Comecei a sair com ela durante o dia para deixa-la cansada e de noite pudessemos dorimo. Fomos ao Shopping Iguatemi no dia 8 de janeiro e lhe dei uma boneca de presente.
Não adiantou.
Noite em claro.
Domingo terrível.
Crise de choro.
Fomos parar de novo na emergência, dois dias depois, desta vez em outro hospital, pois os médicos do anterior não estava ajudando muito. Nada contra, mas que fica de noite com ela sou eu.
Dr. Roberto passou nova medicação e sai de lá renovada de esperanças. Não dormiu. Lógico, o remédio leva um tempo para fazer efeito, pensei.
Noites ruins, acordadas, desesperadas.
No dia 12, a primeira e única noite bem dormida. Acordei renovada.
Jesuíta estava vindo todos os dias de manhã, até 12 horas, para ficar com ela enquanto providenciava e/ou resolvia coisas na rua. O fisioterapeuta Antonio, vinha duas vezes na semana a tarde e Vera uma vez na semana na faxina.
Logico que com tanto estresse, eu iria sucumbir. De fato, no dia 18 acordei passando mal, muito mal, com vômitos e diarreia. Foram dois dias assim.
E a semana seguia em frente com as noites mal dormidas e, o problema maior não era ficar acordada, era as idas e vindas para o quarto dela. Mamãe me chamava umas 8 a 10 vezes por noite. A colocava para dormir e ela ficava quietinha por 15 minutos e quando eu ia para o meu quarto, me chamava. Teve uma noite que contei umas 30 vezes. Verdade.
Isso sem falar que quando a trocava, após o banho,m com os lençóis limpinhos, ela fazia xixi na cama, antes mesmo de conseguir colocar a fralda limpa.
Respirar fundo e contar até mil.
A maquina de lavar nunca trabalhou tanto e as minhas costas estavam bem doloridas.
As despesas estavam bem altas e as fraldas eu conseguia uma parte na Farmácia popular com receituário e uma procuração dela.
Vera passou a vir todos os dias de manhã até 12 horas, liberando a Jesuíta, pois a Vera tinha montado uma loja de roupas no bairro que abria as 13 hs. Perfeito. Eu tinha ajuda.
Fiquei gripada e com febre.
Mas, tinha que continuar.
A levei ao Dr. Paulo que mudou a medicação, de novo. Prescreveu um tratamento alternativo chamado Oxônio três vezes na semana, isso para regularizar o intestino.







Como sempre, a primeira noite com nova medicação, ela dormiu.E durante três dias foram assim.
Até que na quarta noite.......


Título: Fim de 2010

Conforme tinha dito, anteriormente, qualquer manifestação de dor, eu iria leva-la a emergência. Não esperaria a ambulância e, fui o que fiz no dia 29 de dezembro. Eram gazes. Luftal nela.
Ajax passou a vir três vezes na semana para me ajudar no banho dela. Comecei a aprender com ele, a identificar e o que fazer mediante a qualquer situação.
O única coisa que ainda não tínhamos resolvido era as noites sem dormir.
E antes que alguém me pergunte, adianto que foi assim durante quatro meses.
Tive crise de choro, emagreci, as olheiras chegava nos joelhos, todos os dias começavam do mesmo jeito, troca de fralda, preparar o café da manhã meu e dela, fazer o almoço, sair para comprar os mantimentos necessários, pagar contas e, tudo com um medo de ter que deixa-la sozinha por algum período de tempo e algo acontecer.
Passamos a noite de Ano Novo acordadas. De novo.







Título: Tudo de novo.

O laboratório ligou na segunda feira, dia 13 de dezembro, para avisar que o exame dela estava pronto e que, o sangue estava muito fino. Quem está habituado a fazer exames de sangue em casa sabe muito bem que ele nunca ligam, apenas mandam por e'mail ou entregam o resultado em casa, após alguns dias. A orientação deles foi de falar com o médico imediatamente pois, se mamãe sofresse um corte, um machucado, iria sangrar muito, pois a coagulação estava muito prejudicada. Com certeza, liguei para o plano de saúde e pedi para o médico me retornar, com urgência e, meus cuidados foram redobrados. Como não obtive retorno, procurei o Dr. Paulo, que atende no bairro para falar com ele e, a noite, ele me retornou. A orientações era a mesma e que também parasse de dar a medicação para afinar o sangue, o que eu já desconfiava.
Madrugada acordada.
A faxineira veio no dia seguinte e também vieram nos visitar as amigas Jesuíta e Conceição. O enfermeiro veio logo depois para dar o banho. Casa cheia.
Deus sabe os caminhos e nos fala o que fazer.
Comecei o meu dia com a troca de fralda e, percebi que havia um pouco de cocô, com um cheiro muito peculiar. Estava muito escuro e mole. O meu desespero começou e, antes mesmo das pessoas chegarem, eu já sabia. Era sangue. Sangue que estava saindo pelo anus, junto com o cocô. Meus Deus, vai começar tudo de novo.
O enfermeiro chegou e confirmou. Liguei para o plano de saúde e desta vez consegui falar com o médico dela, que pediu um ambulância para vir busca-la. Nesse meio tempo, fui orientada de aplicar o Cister, para tirar o tampão de cocô e o sangue ser liberado pelo ânus.
Começaram a chegar as visitas e a Vera, nossa faxineira, na época.
Enquanto, Ajax, o enfermeiro, aplicava o Cister e aguardava o efeito no quarto. Mamãe se contorcia e toda aquela cena da primeira emergência vinha a minha cabeça, eu caminhava feito uma barata tonta pela casa. Tinha que me ocupar. Fui fazer café pras visitas, que nem chegaram a tomar.
Ajax levou mamãe no colo para o banheiro e ficou com ela. Era muito sangue e cocô junto. O quarto estava todo sujo, lençóis e chão. Vera foi providenciar a limpeza e a casa ficou tomada pelo odor desta mistura. Nunca mais vou me esquecer deste cheiro. Se a morte tem cheiro, é esse.
A angustia pela demora da ambulância me deixou totalmente desorientada. No banheiro, mamãe teve queda de pressão, e Ajax foi eficaz no atendimento. Não a deixou desmaiar e ficou com ela todo o tempo. A levou para o quarto e Jesuíta permaneceu ao seu lado conversando. Houve várias trocas de fraldas e muito sangue. Vera ficava passando pela sala com baldes e panos sujos e retornava para mais uma limpeza no banheiro e no quarto.
Eu anestesiada.
Finalmente a ambulância chegou e fui com ela para o hospital. CTI. Fiquei no corredor aguardando notícias e acabei sentando na escada, aos prantos. Deus! Por quê? A culpa me abateu e as cobranças vieram: eu deveria ter tido mais paciência, buscado mais ajuda, ter feito algo diferente. A sensação de impotência e o sentimento de angustia me derrubaram. Naquele momento eu era um nada. Não sei bem direito o tempo que fiquei esperando mas, me pareceram horas. O médico de plantão veio ao meu encontro e disse que a hemorragia tinha parado e comentou que eu agi muito bem ao retirar o tampão de cocô, deixando o sangue todo acumulado no intestino sair. Ela poderia ter morrido se o intestino tivesse se rompido com a pressão do sangue e das fezes. Ela ficaria internada no CTI para receber plasma e sangue e pediu que eu fosse até a recepção providenciar a internação. As visitas seriam das 14h as 15hs.
Nem voltei para casa. Fiquei na recepção do hospital aguardando o horário de visita. Mamãe estava viva. Meus Bom Deus! Obrigada.
Dois dias depois fui doar sangue.
Três dias depois, ela foi liberada para o quarto.
Nesse dia fui comprar a "poltrona do papai", aquela que reclina, para quando ela voltasse pra casa ficasse mais confortável.
No dia 20, foi programado uma Coloscopia, então, alimentação zero e remédio para evacuar. Nada foi encontrado que justificasse o sangramento que teve. A única explicação foi que, por estar o sangue muito fino, deve ter ocorrido a ruptora de algum vaso, que acabou causando todo esse sangramento.
Recebeu anestesia e duas pessoas acompanharam o procedimento. Tudo muito tranquilo. Menos para minha mãe, que após esse exame, alucinou, contando coisas sem nexo.
Recebeu alta dia 22 de dezembro e, todos os dias, Jesuíta ia nos visitar e levar o meu almoço.
Ao retornamos para casa, mamãe não reconhecer o quarto. Muito confusa e cansada, conseguiu dormir a sua primeira noite.
Eu nem desconfiava que tudo aquilo tinha despertado o Alzheimer nela.
Os dias que se seguiram, foram extremamente estressantes, pois ela ainda não conseguia dormir de noite, só de dia. Ficava agitada, via sombras, falava sozinha e eu, dentro do possível, ficava com ela.
Conseguia cochilar durante uma hora e meia por noite, que era quando ela dormia.
Dr Paulo veio nos vistar na véspera do Natal e passou uma medicação para tentar faze-la dormir. Não funcionou. Foi o primeiro Natal sem arvore, sem presentes, andando de um lado pro outro, tentando acalma-la. Todos diziam que era devido o período em que ficou no CTI, normal isso acontecer com idosos, essa confusão mental e a troca do dia pela noite.
Minha grande surpresa foi a minha visita Rosângela, uma amiga muito querida, que veio a minha porta com um prato contendo a ceia de Natal. Tinha um pouco de tudo. Se ofereceu para fazer uma sopa de inhame pra mamãe no dia seguinte e cumpriu. Coloquei em potes para aquecer a medida que fossem necessários.
No dia de Natal, minha amiga Lucinda, que já tinha nos visitados durante a internação, veio com a família.
Eu estava perdida, com sono, cansada, estressa mais uma vez.
Qualquer sintoma de dor, eu estava pronta para correr com ela até o hospital mais próximo.





Ah! Estava me esquecendo, os dois coágulos, os da trombo, lembra?, pois bem, desapareceram. Não havia mais nada nos exames feitos no hospital. Acredita-se que, com a perda de sangue, eles foram juntos.










17 junho 2019

Título: Entre idas e vindas.


Como estava escrevendo, mamãe recebeu alta no dia primeiro de dezembro de 2010. Fomos pra casa e, pelas fotos, vocês perceberam que ela estava bem, tirando o fato de que estava com dois coálogos na virilha, o que chamamos de trombose, comprovado pelo Eco Doppler colorido venoso de membros inferiores que pode demostrar o trombo dentro da veia. Após esse exame, começou a serem administrados injeções na barriga para afinar o sangue mas, como essa trombo só foi descoberta na semana da alta, foi pra casa com recomendações de fazer repouso e usar a medicação indicada. Só que tivemos uma dificuldade. Não me deram o pedido de exame de sangue para ser realizado após alguns dias de uso do remédio. Fato esse que só fui perceber em casa.
Continuou fazendo uso da nebulização e das medicações recomendadas. Voltou a se alimentar melhor e, por se encontrar muito desorientada, não conseguia dormir de noite. Nessa época, mamãe se levantava a noite, com todos os riscos de queda, e pegava o remédio tarja preta para dormir. Os outro remédio era eu quem administrava, até perceber que algo estava errado com o sono dela. Não dormíamos a noite e ela, dormia muito de dia. Ficava muito agitada de noite e era um levantar para ir pra sala, voltar pro quarto e retornar pra sala, muito cansativo e, eu atras dela, falando, pedindo, implorando, cansada e bastante estressada, precisava que ela dormisse , o que acontecia, geralmente, altas horas da madrugada. Lembro que ela ainda andava, de muletas ou se segurando nos móveis, com dificuldades, mas andava.
Na semana seguinte, consegui o pedido médico com a enfermeira do plano de saúde, que me trouxa na sexta, dia 10 de dezembro e,  agendei para sábado, o exame em casa. Esse exame específico é chamado Dímero D que quando está normal, exclui a possibilidade de trombose e é um exame que não precisa de jejum e costuma ficar pronto em 3 horas.
Não é o momento de me justificar e isso também não explica nada. Nunca cuidei de ninguém, não tive filhos, sou filha única, sem primos ao meu redor,  e minha mãe sempre foi uma pessoa forte, matriarca da família e, nesse momento, precisava de mim. Depois de um longo período no hospital, eu estava muito cansada devido a impossibilidade de dormir a noite e, de dia, não consigo, por mais cansada que esteja. Não sabia o que estava acontecendo, apenas que minha mãe estava em casa após uma cirurgia de risco, tinha passado por uma série de problemas no hospital e minha alegria estava sendo abafada por todos esses problemas em casa. Comprei micro ondas para esquentar a comida, fiz compras de supermercado, corri atras das medicações e, sem falar do meu trabalho em casa que estava todo acumulado e os prazos vencidos. Contratei um enfermeiro para vir dar banho nela todos os dias de manhã cedo. Ele saia de seu plantão em outra residência e vinha direto para minha casa. Nunca tinha dado banho na mamãe e uma maneira de ter alguém me ajudando, temporariamente, era contratar alguém. 
A semana seguinte mamãe recomeçou com a fisioterapia em casa. 








Título: Pneumonia

A recorrência de pneumonias é devido a fragilidade respiratória causada pelo Alzheimer, que, não mata, como todos sabem. Problemas respiratórios, como bronco espasmo, bronco aspiração, pneumonia e problemas cardíacos, ocorrem com mais frequência ao avançar da doença.
Como ela está acamada nessa fase, fluidos acabam se formando no pulmão e, todo o cuidado é pouco. Mante-la o máximo de tempo sentada, vira-la com certa frequência, podem facilitar no cuidar do dia a dia.

Então, peguei minhas anotações de 2010 pra cá e fui ver as internações e corridas para a emergência.
Acredito que, pelo período de diagnóstico, minha mãe já estava com Alzheimer nesta época, ainda não diagnosticada.

Tudo começou em 2010, dia 28 de outubro.

As três da madrugada, acordei com minha mãe aos berros, de dor. Ela já estava se sentindo mal, desde o dia 13 de outubro deste mesmo ano, após uma queda que teve no feriado de Nossa Senhora Aparecida, na porta do banheiro, após injeção de medicamentos  para ir ao banheiro, devido a dificuldades de evacuar. Por andar com a ajuda de muleta, acabou escorregando as 16 horas aproximadamente e, pedi a ajuda de um funcionário do prédio para levanta-la. Ficou dolorida e não quis ir a emergência porque o remédio estava fazendo efeito e precisa ficar no banheiro. Bem, os dias seguintes, ela ficou com dor e, pois o bumbum ficou roxo pela queda e, a levei a emergência que diagnosticaram com Dor no Nervo Ciático, começaram com um tratamento com anti-inflamatórios. Fizeram um raio X e ultra sonografia da região e não encontraram fraturas. Essa dor, deve ser horrível, pois ela parou de andar de um momento para outro e só queria ficar na cama. Por esse motivo, pegue emprestado um andador, que nem fez uso. Não conseguia ficar em pé. Gritava muito. No dia 23, de manhã bem cedo, chamei a ambulância do plano de saúde que deram uma injeção com anti-inflamatórios. Ao meio dia, não aguentando de dor, a levei a emergência de novo. Mais anti-inflamatórios. Voltamos pra casa as 17 horas e, seu apetite praticamente desapareceu por esses dias. Era um custo faze-la comer. Vitaminas, sucos, sopas, tudo foi feito e ela só tomava um pouquinho alegando muita dor. Dois dias depois, a ambulância retomou em casa e confirmou o diagnóstico de nervo ciático, que era assim mesmo, fazer compressas, dar a medicação e de novo, uma injeção. De tarde, a levei a emergência novamente.
Ou seja, em um período bem curto, fomos a emergência três vezes e chamei a ambulância duas vezes.
Em todas essas cinco consultas, diagnóstico de Nervo Ciático e anti-inflatório. Noites sem dormir e sem se alimentar direito, não podia dar certo.



As três da manhã, com o estomago estufado, quente e vermelho, gritando de dor, fui acordada. Imediatamente chamei a ambulância que chegou duas horas depois. Durante esse tempo, fiquei com ela, tentando amenizar, sem exito. O diagnóstico imediato deles foi de rompimento do intestino, internação imediata com cirurgia. Começou a busca por um hospital que tivesse condições de se realizar esta cirurgia de emergência e fomos parar no bairro de Laranjeiras. Bem no momento da troca de equipe. Nós duas, na sala de emergência, ela gritando e se contorcendo muito e eu dando trabalho a nova equipe para que algo fosse feito de imediato. Foi feito imagens as sete horas da manhã. Nelas, não conseguiram identificar se era do intestino ou do estômago que tinha se rompido. Seria internada e uma equipe chamada para a cirurgia. Fui em casa buscar roupa e os documentos necessários quando o médico cirurgião me ligou as 11 horas, pedindo autorização para realizar a cirurgia, pois não daria tempo de me aguardarem. Tratava-se de uma cirurgia de risco nível 4.
Vocês podem imaginar o meu desespero!
Cai em prantos aos pés de Nosso Senhor e pedi, pedi muito, uma chance de cuidar dela. Que eu a aceitava do jeito que ele a me devolvesse. Chorei muito e, liguei para uma amiga, e fomos juntas para o hospital. Cheguei na hora em que o médico estava indo para a sala de cirurgia, pois minha mãe já estava lá com a equipe. Me contou que hoje não era o dia dele estar de plantão, mas que o hospital tinha ligado e ele se prontificou. Isso pra mim já era um sinal.
Durante as duas horas seguintes, a agonia, a ansiedade e milhões de pensamentos se formaram. Foram as piores horas de espera da minha vida. E Deus me atendeu.
Ficou do dia 28 de outubro ao dia 4 de novembro no CTI, sem poder se alimentar e sem beber água. O rompimento tinha ocorrido no estômago devido as fortes medicações que tomou. Todos os dias as 13 horas eu estava com ela. E todos os dias as 14 horas ia pra casa e olhava suas coisas, sua cama vazia, o armário, chinelo no meio da sala, que deixei até o dia que retornou. Toda vez que o telefone tocava, meu coração parava. Um sentimento de impotência tomou conta de mim e, mantive uma vela acessa para Santa Rita de Cássia durante todo esse período.
Minha mãe teve as mãos amarrada, feito luva de box, foi contida na cama e, chegou a ser entubada por 24 horas. A sedaram pois queria sair da cama e ir pra casa. Me chamava direto e eu não podia ficar com ela. As pessoas sempre me perguntava como ela estava e, alguns otimistas, me davam um abraço e palavras de conforto. Outras, já agiam negativamente. Essas, já não fazem parte da minha vida.
Ela alucinou no CTI.
Contou-me coisas sem pé e cabeça e, por falta de experiência, não sabia o que estava acontecendo. Apenas me falaram que o CTI desorienta muito os idosos.
Seria já o Alzheimer?
Dia 4 de novembro, desceu para o quarto. Fiquei com ela todos os dias. O trajeto de ir e vir era muito longo e justamente no horário do rush. Mas tinha que ir em casa cuidar dos meus canários. No dia 19, ela teve o que chamamos de broncoespasmo, bem na hora do almoço. Conclusão: CTI por 24 horas. E lá fui eu de novo pra casa, desanimada e desamparada. Soube depois, que ela tinha desenvolvido uma pneumonia, infecção na urina (tipo grave), pois pensavam até em hemodiálise e, para concluir, trombo na virilha.
No dia seguinte desceu para o quarto.
A alta só foi acontecer no dia primeiro de dezembro.
Mamãe ficava tranquila durante o dia todo e, nas noites em que eu não podia ficar, demonstrava alterações de humor e de comportamento.
Deixei com ela o celular e, de hora em hora ela me ligava, não tinha noção do horário e nem se lembrava que já tinha falado comigo. Podia ser 2h da manhã ou acabado de sair do hospital. A equipe de enfermagem reclamava dizendo que eu não a podia deixar sozinha no quarto e eu, falava que não eram todos os dias, que precisava resolver problemas na rua e, quando a deixava, era com alguém. Menos algumas noites em que não consegui ninguém.
Bem, durante essas noites, foi fralda jogada no meio do corredor, pois deixavam a porta do quarto aberta com a luz acessa para a monitorarem. Teve o botão de chamada arrancado (ela diz que foi a enfermeira e a mesma diz que foi minha mãe). Ela colocava o terror até o ponto da enfermeira de plantão me ligar e "mandar" eu ir para o hospital naquele momento porque ela não ganhava pra isso. Afinal de contas, minha mãe estava falando o dialeto e a enfermeira pensava que a estava xingando.
Não a deixei mais sozinha até o dia da alta.






Mas, vocês pensam que tudo ficou resolvido?


11 junho 2019

Títulos: Outros aniversários

Não somos muito de vida social, até porque, quem cuida, não tem vida social.
Então, antes mesmo da doença ser diagnosticada, saímos pouco e, onde eu fosse, a levava. Sempre fomos muito apegadas. Sempre falamos muito e trocávamos muitas idéias, cada uma defendendo uma posição. Mas, os aniversários, em sua maioria, comemorávamos em casa, com alguns amigos. Tenho registrado quase todos os anos, pois nessa época, o canal do Youtube nem existia e, também, não tínhamos a tecnologia de hoje.Hoje tudo é mais fácil, pega o celular e pronto.

Fotos de 2012:






Fotos de 2013:






Fotos de 2014:





07 junho 2019

Título: Genética

Ninguém na nossa família tem ou teve Alzheimer, que eu saiba. Procurei me informar e a família, que mora na Espanha, desconhece. Bem.... Vovó, mãe de minha mãe, foi diagnosticada com Esclerose.
O que seria: as lesões nos nervos causam distúrbios na comunicação entre o cérebro e o corpo. Essa doença, o sistema imunológico destrói a cobertura protetora dos nervos. Essa doença também não tem cura. É uma doença potencialmente debilitante.
Mas isso é outra doença.

Link: https://youtu.be/0ElDCtaAVPA
e  https://youtu.be/oZB5iwmw9c8








Título: Tudo junto e misturado

 Com o avanço do Alzheimer, as expressões mudam, mas ela reconhece meu amor.
Sempre tivermos uma forte sintonia e, bastava um olhar para saber o que ela queria. Isso desde que me lembro. A minha mãe sempre foi uma pessoa forte, não só de opiniões, mas também de carácter. Lembro-me dela estar sempre presente, nas reuniões de escola, nos trabalhos escolares (mesmo não sabendo tudo), nas brincadeiras e, principalmente quando eu ficava dodói. Por ser filha única fui muito mimada, não no sentido total da palavra, pois os puxões de orelha existiriam. Costumava sentar comigo em vez de bater ou colocar de castigo diante as minhas peraltices. Houve uma vez que  quase apanhei mas,por total falta de esquecimento. Não dela, da minha vovó Catalina. Vou contar: morávamos em uma casa bem grande com quintal. Como sempre,destacamos em crise econômica e não se encontrava alimentos nas prateleiras e era necessário fazer fila para se conseguir comprar o básico. Carne nem pensar. Isso era anos setenta. Os mais velhos devem se lembrar dessa época. A solução encontrada foi montar um galinheiro nos fundos do quintal e fazer um segundo andar beirando os 3 cantos, colocando em forma de "U", colocando alí duas coelhas e um macho, que acabaram se multiplicando no passar do tempo. Durante a semana, tínhamos carne de galinha e aos domingos, de coelho. Foram três anos desse jeito.
Mas, voltando ao assunto da quase surra, minha avó limpava esse galinheiro de tarde com minha mãe. Uma tarde dessas, mamãe precisou sair e eu fiquei responsável em fechar a portinhola, com minha avó dentro e, depois de uns 30 ou 40 minutos, ir abrir. Só sei que acabei me envolvendo com a sessão da tarde e, só escutei os gritos da minha avó no final do filme. Lógico que não fui abrir a portinha porque ela estava me ameaçando me bater. Esperei mamãe chegar. O final da história vocês já podem imaginar. Mamãe abriu a porta e, apesar dos meus apelos  vovó, veio correndo com o cinto pra me bater. Imagina a cena: eu na frente (desesperada), vovó gritando com o cinto na mão e minha mãe atrás para evitar o pior. O que me saltou foi o coelho que escapou quando a portinha foi aberta. Então, o fico mudou. Enquanto as duas corriam atrás do coelho, eu me escondia debaixo da cama. Fiquei lá até meu pai chegar. Ah! Não apanhei.







06 junho 2019

Título: Aniversário dos 90 anos parte 02

Como estava contando no capítulo anterior, resolvi comemorar junto com ela, nossos aniversários. Chamamos algumas pessoas mais próximas e enchemos a casa de alegria. Ela demonstrou que gostou e ficou super feliz. Deu tudo certo.



Nos seus 91 anos, fizemos um bolo com poucos amigos: segue os links dos vídeos: Link: https://youtu.be/YBY1mzAioxg  e https://youtu.be/cz0W51EJSU4

Título: Aniversário dos 90 anos parte 01


Enquanto mamãe fazia fisioterapia a lazer com a equipe do DR. Paulo Monte, resolvemos fazer uma pequena surpresa para ela, com direito a bolo e refrigerante. As outras pacientes participaram e fizemos uma pequena bagunça. Ela gostou muito e, fiquei planejando para o dia 04 de março, pois período de carnaval, uma comemoração dupla. O dela é final de fevereiro e o meu no inicio de março. Juntamos tudo e comemoramos.






Título: Grande decisão


Sempre desejei ter um filho ou filha mas, tudo ia adiando esse momento. Quando percebi, estava com mais de 50 anos e, a adoção seria o caminho certo a seguir. Não porque eu não podia ter filhos. Sim, eu podia ter tido. Mas, fui colocando empecilhos diante do trabalho, diante dos problemas que iam surgindo a cada ano, etc. Primeiro com a minha separação (divórcio), falecimento do meu pai, minha mãe doente, Alzheimer..... até que me dei conta que, se não fosse agora, não seria nunca. Corri atrás e dei entrada na papelada. Comecei a participar do grupo da adoção e um ano e meio depois, estava com o meu certificado. Todo esse processo foi compartilhado com minha mãe que ainda compreendia que um neto ou neta iria chegar em nossa família. Ela esperou com expectativa e, todas as vezes que eu saia, explicava que estava indo ao encontro do meu sonho. No dia 31 de outubro de 2017, as 14h, conheci David, no mesmo dia em que fui certificada. Meu nome estava no banco nacional da adoção e os telefonemas começaram. Foi rápido?! Não sei. Só sei que tudo tem haver com o perfil que você disponibiliza. O meu foi bem amplo: ambos os sexos, de 8 a 12 anos, independente de raça. David nasceu pra mim. Começamos a nos encontrar semanalmente por uma hora apenas, sob o controle da equipe e, no feriados eu podia leva-lo para passear. Fomos em vários lugares como a Quinta da Boa Vista, no Museo do Amanhã, no Aquário, tudo regado com muitas risadas, almoço e carinho. Nesses dias, eu ia busca-lo e o devolvia dentro do horário combinado. Esses passeio passaram a ser semanais, aos sábados até que no dia 08 de dezembro do mesmo ano, ele veio passar um final de semana. David foi preparado para conhecer a avó e foi muito bonito esse momento. Ele logo começou a chama-la de vovó, foi um carinho mutuo despertado instantaneamente.


Nesse mês de dezembro, David ficaria alguns dias, retornaria para o lar temporário e, perto das festas de final de ano, ele voltaria para nossa casa. O combinado era dele passar o Natal com a família acolhedora e o ano novo conosco.  Mas acabou que ele veio no dia 08 e só retornou para buscar suas coisas, decidindo ficar. Eu era a sua mãe agora.

Mas, tudo isso é apenas para registrar esse momento. Pois a adoção é outra história.























05 junho 2019

Título: Espanha

Meus pais vieram para o Brasil no final dos anos 50 (entre 1958 e 1959). Primeiro meu pai e nove meses depois, minha mãe. Ambos aprenderam a ler, escrever e a falar o nosso idioma. Meu pai, sempre trabalhou com calçados e, minha mãe o auxiliava no início desta vida profissional no Brasil.
Como não podia ter filhos, fez um tratamento que acabou dando resultado. Nasci em 1961.

Nesse período, ocorreram várias oportunidade deles viajarem a sua terra natal e a primeira, foi em 1964, antes do golpe militar. Como ele tinha sua pequena fábrica na rua das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, perto do Palácio do Catete, meu pai resolveu nos enviar a Espanha, antes que ocorresse problemas na região. Dito e feito, os boatos eram verdadeiros e logo em seguida, ocorreu o golpe. Minha mãe e eu estávamos em Mallorca, pertencente as Ilhas Baleares na Espanha. Ficamos na casa de minha avó materna durante seis meses. Eu tinha três anos de idade e, logicamente, não me lembro de nada. Apenas as poucos fotos que ficaram retratam esse período.
Depois disso, eles foram em 1981; 1988; 1990;  1995; 1996 e 1998. Fui em todas, menos a de 1995.
Em todos esse passeios sempre ficamos nas casas dos parentes que sempre nos receberam muito bem e eles tiveram a oportunidade de me mostrar todos os encantos deste lugar, que considero meu lar também.










1981







Título: A farmácia

Bem essa história vocês já viram no YouTube. mas vale a pena contar.

Mamãe sempre foi muito independente sempre gostava de sair para fazer suas compras, seja de mercado, padaria ou farmácia. Mesmo me oferecendo para ir  seu luga, pois tinha que sair de qualquer maneira para resolver alumas coisas. A resposta era sempre não, não precisava de nada.
Eu já desconfiava que ela saia logo após de mim e deixei os porteiros orientados para me avisarem quando isso acontecia. Na maioria das vezes ela ia a farmácia comprar um medicamento livre para ajudar o intestino, que sempre foi preso e era uma das suas maiores preocupações nessa época. Chegava a usar um calendário para marcar o dia que teria que usar esse remédio para ir ao banheiro. Essas marcações a confundiam e ficava, as vezes, horas, marcando e remarcando, sinais nítidos do Alzheimer. Mas, nessa época, nem desconfiava.
Lembro-me bem da última vez em que ela saiu sozinha a farmácia, usava muleta para auxiliar nesse caminhar e o diagnóstico ainda não tinha chegado. Ao passar pela portaria, fui informada, como sempre, que minha mãe tinha saído logo depois de mim e voltara muito estranha.
Ao entrar em casa, a encontrei chorando e tremendo muito a tal ponto que tive que ajuda-la a se sentar e lhe dei um copo com água. Entre fortes soluços, contou que uma mulher tinha tentado assalta-la e a jogara em frente de um carro.
Como assim, mãe?
A estória tinha muitos detalhes e quanto mais eu perguntava, mais assustadora ficava.
Ela tinha saído para ir a farmácia pois esquecera de me pedir pra comprar o remédio dela, mesmo tendo celular na época, não lembrou de usar.
Passou pela banca de jornal e, ao atravessa a rua, cuja farmácia fica em frente, uma senhora, de uns 40 anos, bem vestida, colocou a mão sob o seu relógio e a empurrou, fazendo-a cair na faixa quando um carro freio bem em cima dela. Várias pessoas a socorreram e começaram a xinga a tal senhora que saiu correndo sem levar o seu relógio.
Nesse primeiro momento acreditei e a abracei quando ela me afirmou que esse seria a última vez que sairia a rua sozinha. No dia seguinte, fui em busca da verdade, pois achei muito estranho a mulher tentar roubar um relógio, estando ela com bolsa numa das mãos e a muleta na outra.
Na banca de jornais, o Sr. Francisco não tinha visto nada e nem ouvido nenhuma freada ou tumulto.
Na farmácia, o rapaz que sempre a atende, estava na porta no momento e me contou o que realmente aconteceu.
"Sua mãe estava parada na calçada aguardando o sinal fechar e, quando foi descer o degrau, uma mulher tentou ajuda-la, segurando seu braço esquerdo,  pois ela estava com a muleta do lado direito. Nem sei direito o que aconteceu, só vi sua mãe no chão e um monte de gente tentando levanta-la. O sinal estava fechado e os carros parados. Fui até ela e a ajudei a entrar na farmácia, colocando-a sentada num banquinho." E concluiu: "Você não deveria deixar sua mãe sair sozinha, pois ela poderia ter se machucado".







04 junho 2019

Título: Coisas do Alzheimer



Em 11 de novembro de 2016, Angela chega em casa e, como sempre, a primeira pessoa que ela vai cumprimentar é  minha mãe. Desta vez, foi surpreendida por ela, pois assim que viu a bolsa em seu ombro foi logo perguntando: "O que você está fazendo com a minha bolsa?"
OPS!
Lógico que a primeira resposta foi que a bolsa não era dela mas, nessas situações aprendemos que não adianta discutir ou negar algo que para eles está bem claro. "Você pegou minha bolsa sem autorização." Eta espanhola brava!
Angela já tem o seu jeito de lidar com mamãe e entrou na pilha e entregou a bolsa pra ela, que logo foi aberta e começou a vasculhar. Separou o dinheiro e pós no bolso do vestido e ficou olhando cada objeto que tirava, espalhando pela mesinha o guarda chuva e os remédios, que prontamente Angela pegou num momento de distração dela e, outros objetos pois na poltrona ao lado. Saciada a curiosidade, acabou largando a bolsa. Minutos depois, com a bolsa recuperada, Angela aprendeu que, quando chegar em casa, deixar bolsa, casaco, guarda chuva na cozinha e depois sim, ir falar com ela. Pois também teve uma outra vez, que ela "perdeu" o casaco pra mamãe na hora de ir embora. Só no dia seguinte o recuperou.
"Pode ir tirando esse casaco que ele é meu".
Angela retrucou, mas faz frio no trem e vou precisar dele. Você me empresta? "Não".
E agora?